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O meu avô

Janeiro 5, 2008

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Este é um retrato do meu avô, o fundador da casa.

Sabemos, pelas datas encontradas em adobes de barro nas paredes interiores durante as obras de restauro, que em 1902 já tinha começado a construir a casa e que as obras duraram até, pelo menos, 1906 data existente  junto ao telhado. Não se encontram outros registos, mas percebe-se que pelo menos durante 4 anos decorreu o levantamento das paredes, adobe sobre adobe, segundo técnicas ancestrais, que prevêm o arejamento subterrâneo e garantem aos moradores a protecção contra os rigores da natureza.

Não tenho memórias do meu avô, a não ser das histórias que ouvi na infância a seu respeito. Sei que foi um dos poucos habitantes do lugar, naquela data. E que diziam tratar-se de um homem austero, exigente, dono e adinistrador de vários hectares de terras de cultivo, oliveiras, vinha e pinhal. Dedicava-se aos negócios de madeiras, pelo que passava muitos dias sozinho a cavalo pelas matas e pinhais. Diziam até que foi por isso que a minha avó enlouqueceu nova, que não suportava as saudades…

Mas também sei que o meu avô era pequenino e usava chapéu. Como o Senhor Valéry…

O senhor Valéry era distraído. Não confundia a mulher com o chapéu, como sucedia com algumas pessoas, mas confundia o chapéu com o seu cabelo.  

A ideia que o senhor Valéry tinha é que andava sempre de chapéu, mas não era verdade.  

Julgando tratar-se do chapéu, o senhor Valéry, ao passar por uma senhora, tinha por costume levantar ligeiramente os cabelos à frente da testa, por cortesia. As senhoras sorriam muito, por dentro, com a distração, mas agradeciam a gentileza.     

Com o medo do ridículo o senhor Valéry passou a precaver-se e antes de sair de casa enterrava o seu chapéu de coco até ao fundo da cabeça para ter a certeza de que o levava.  

O senhor Valéry até fez o desenho do seu chapéu e da cabeça de costas  

      e também de frente   

O senhor Valéry enterrava tanto o chapéu sobre a cabeça que agora era com grande dificuldade que o conseguia tirar.   

Quando uma senhora passava pelo senhor Valéry, na rua, ele tentava com as duas mãos levantar um pouco o chapéu, mas não conseguia.  

As senhoras prosseguiam o seu caminho e pelo canto do olho viam o senhor Valéry a suar, com a cara vermelha de impaciência, e com uma mão de cada lado a puxar para cima o chapéu como se faz às rolhas das garrafas difíceis. Como não podiam esperar pelo fim da acção do senhor Valéry, que certas vezes durava longos minutos, as senhoras afastavam-se antes de assistir ao desenlace da situação.  

O senhor Valéry passava, assim, certas vezes, por malcriado, o que era injusto.

Gonçalo Tavares, O Senhor Valéry, 2002

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