O meu avô

o-meu-avo.jpg

Este é um retrato do meu avô, o fundador da casa.

Sabemos, pelas datas encontradas em adobes de barro nas paredes interiores durante as obras de restauro, que em 1902 já tinha começado a construir a casa e que as obras duraram até, pelo menos, 1906 data existente  junto ao telhado. Não se encontram outros registos, mas percebe-se que pelo menos durante 4 anos decorreu o levantamento das paredes, adobe sobre adobe, segundo técnicas ancestrais, que prevêm o arejamento subterrâneo e garantem aos moradores a protecção contra os rigores da natureza.

Não tenho memórias do meu avô, a não ser das histórias que ouvi na infância a seu respeito. Sei que foi um dos poucos habitantes do lugar, naquela data. E que diziam tratar-se de um homem austero, exigente, dono e adinistrador de vários hectares de terras de cultivo, oliveiras, vinha e pinhal. Dedicava-se aos negócios de madeiras, pelo que passava muitos dias sozinho a cavalo pelas matas e pinhais. Diziam até que foi por isso que a minha avó enlouqueceu nova, que não suportava as saudades…

Mas também sei que o meu avô era pequenino e usava chapéu. Como o Senhor Valéry…

O senhor Valéry era distraído. Não confundia a mulher com o chapéu, como sucedia com algumas pessoas, mas confundia o chapéu com o seu cabelo.  

A ideia que o senhor Valéry tinha é que andava sempre de chapéu, mas não era verdade.  

Julgando tratar-se do chapéu, o senhor Valéry, ao passar por uma senhora, tinha por costume levantar ligeiramente os cabelos à frente da testa, por cortesia. As senhoras sorriam muito, por dentro, com a distração, mas agradeciam a gentileza.     

Com o medo do ridículo o senhor Valéry passou a precaver-se e antes de sair de casa enterrava o seu chapéu de coco até ao fundo da cabeça para ter a certeza de que o levava.  

O senhor Valéry até fez o desenho do seu chapéu e da cabeça de costas  

      e também de frente   

O senhor Valéry enterrava tanto o chapéu sobre a cabeça que agora era com grande dificuldade que o conseguia tirar.   

Quando uma senhora passava pelo senhor Valéry, na rua, ele tentava com as duas mãos levantar um pouco o chapéu, mas não conseguia.  

As senhoras prosseguiam o seu caminho e pelo canto do olho viam o senhor Valéry a suar, com a cara vermelha de impaciência, e com uma mão de cada lado a puxar para cima o chapéu como se faz às rolhas das garrafas difíceis. Como não podiam esperar pelo fim da acção do senhor Valéry, que certas vezes durava longos minutos, as senhoras afastavam-se antes de assistir ao desenlace da situação.  

O senhor Valéry passava, assim, certas vezes, por malcriado, o que era injusto.

Gonçalo Tavares, O Senhor Valéry, 2002

Anúncios

Etiquetas:

7 Respostas to “O meu avô”

  1. Isabel Mexia Says:

    Querida Tina
    Tudo de bom para ti, neste Novo Ano que começa. E, se queres um conselho avança cm a escrita, porque toda tu és um poema, mesmo quando escreves em prosa !!! Não te conhecia esse dom, mas é óptimo irmos descobrindo cada vez mais qualidades naqueles a quem recordamos com amizade e carinho. Vai à frente miúda, que valores a sério não existem muitos num país medíocre onde qualquer “bicho careta”, agora, publica um livro…Gostei sinceramente da forma como descreves o Natal na tua ( ou em qq outra..) eira, e o romantismo emanente à recordação do teu avô.
    Mais um abraço amigo e vai dando notícias
    Isabel Mexia

  2. Carlos Diniz Says:

    Viva Tina,
    fantástica a tua ideia de reviver o passado dos teus através destas evocações, uma maneira de encontrares as tuas raízes e fazer com que elas permaneçam na memória dos teus sobrinhos.
    Acho sempre uma bela ideia tentarmos encher de memórias o passado que foi dos nossos e que deixaram o testemunho do seu trabalho e das suas canseiras em paredes suadas…
    Estou convencido que o Vergílio seria da mesma opinião e te teria ajudado nestas evocações.
    Um beijo para ti e que o projecto continue, é sempre enriquecedor povoar as nossas memórias,
    Carlos Diniz

  3. casadatina Says:

    Obrigado, querida amiga Isabel, pelas tuas simpáticas palavras em relação à minha escrita. Só escrevo sobre o que me toca a alma, embora o faça com simplicidade. Esta foi a forma que encontrei de poder divulgar esta casa de forma personalizada, tentando colocar em cada post mais um detalhe, mais uma de tantas memórias que habitam deste espaço, recriando assim um lugar com alma própria, com passado e presente.. E por outro lado o bloge permite-me comunicar com quem, de alguma forma, comigo a partilha.
    Obrigado pelo teu apoio e quando quiserem vir respirar o ar puro do pinhal e fazer umas caminhadas pelos arredores, apareçam!
    Beijinhos com o arom da terra
    Tina

  4. casadatina Says:

    Viva, Carlos!

    Muito obrigado pelo teu entusiasmo pelo blog, sei que ambos valorizamos esta coisa das memórias de família. São elas que contextualizam e dão valor ao presente, porque do que nos foi dado reconstruimos para o futuro.
    Partilhamos também memórias comuns. Acredita que o Vergilio, mesmo já não estando, está muito presente nesta casa em que ambos crescemos. Como irmão mais velho ajudou-me muito a crescer para o mundo e a acreditar que os sonhos são possíveis, mesmo que tantas vezes seja difícil remar contra a maré…quando as ondas são traiçoeiras.

    Beijinhos com o aroma da terra
    Tina

  5. Lúcia Neves Says:

    A Tina, os pais da Tina, a família da Tina fizeram e fazem parte das minhas vivências, do meu percurso de vida, das minhas alegrias e tristezas. São também um pouco a minha família……. mais alargada.
    A Tina abraçou este projecto com alma e determinação, por isso merece a minha admiração.
    Espero reviver e continuar a viver bons momentos na casadatina.
    Beijos do coração

  6. casadatina Says:

    Lúcia

    São longos os caminhos que percorremos separadas, mas sempre nos reencontramos nos nossos locais de outrora.
    Este é o espaço que elegi de alma e coração para partilhar bons momentos com os amigos.

    Até sempre, minha Amiga!
    Beijos com o aroma da terra.
    Tina

  7. Carla Oliveira Says:

    Há sempre um deus fantástico nas casas
    em que eu moro e em volta dos meus passos
    eu sinto os grandes anjos cujas asas
    contêm todos os ventos dos espaços

    (Sophia)

    Obrigada, Tina!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: