Doze Primaveras

A casa  faz muito mais sentido quando é habitada pelas pessoas de que mais gostamos:  tardes e noites tranquilas, conversas que fluem à roda da mesa ou das espreguiçadeiras, a pretexto de um livro, direitos de autor, uma viagem ou até os filhos. Tertúlias serenas a contrastar com a alegria das crianças que enche o pátio de corridas e gargalhadas, aproveitando o calor do sol para os banhos no tanque ou o escuro da noite para se aventurarem às escondidas nos recantos mais sombrios da casa.

É por esta boa energia que todos trazem à casa, uns e outros, que é sempre um enorme prazer partilhar a casa com os Amigos. Que por sua vez trazem novos amigos e assim a rede se vai alargando quase por acaso, no encontro das conversas.

E porque são eles os principais protagonistas nesta história, decidi aceitar a generosidade da Sílvia Alves, que com a sua enorme sensibilidade e sabedoria teceu as palavras e  fotos que aqui vos deixamos, para que o aroma e calor da festa não perdure apenas nas nossas lembranças. 

“Numa  casa onde continuamos a ter céu e sol depois de entrarmos, construída de tempo, afectos e paciência, recebe-nos uma bonita fada sorridente, a quem vamos devolvendo sorrisos ao reencontrá-la num cesto de pão fresco, num ramo de flores ou na brancura dos lençóis de camas antigas. 

 

 

Numa casa, já muitas vezes visitada por gente que vem de longe. Marina Colassanti esteve aqui, uma tarde, tecida na voz de Evaldo Barros: “Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear (… ) Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.” Tecer a vida com palavras é tudo o que fazemos.

 

 

Numa casa onde, por uma ou muitas vezes que vos for dado aqui passar, as estrelas à noite ou a conversa semeada pelos cantos hão-de soprar-vos sonhos de almas viajantes, celebrámos este ano, duplamente, uma dúzia de Primaveras. As da Joana e as da Francisca. Nascidas ambas a 6 de Setembro de 1996, num início de tarde, num dia igual em geografias diferentes. Conheceram-se há seis anos, que voaram num sopro, por obra do acaso, a propósito de histórias e de livros. E hão-de seguir caminhos diversos onde, desejamos, haja sempre amigos a chegar ou a serem lembrados.

 

“Não tenhamos receio das velhas lendas, pois a vida é mais velha que todas elas. As lendas podem nascer em todos os lugares, mas não viver em todos os lugares. Talvez possam viver em toda a parte… mas o local onde se desenrolam adquirirá importância; aqueles quilómetros quadrados e aquelas verstás ficarão para sempre ligadas ao tempo e ao destino. Reside aí o ponto de intersecção do tempo, da geografia, da vida… Se não houvesse história, a geografia não teria sentido. (…)”

Jorge listopad

Tristão ou a Traição de Um intelectual

in Fruta tocada por falta de Jardineiro

Editora Quasi

 

  Descalçou os sapatos mas não para ocupar a cadeira. Foi peregrinando espaços. Jardineiro atento mas complacente com a desordem própria do crescimento das ervas.

 

Das mãos da Lídia, como sempre, saíram doçuras.      

 

 

A chuva implacável do dia anterior ficou suspensa. O tanque encheu-se de água e de brincadeiras. As mães dividiram com a natureza as preocupações da maternidade.  Afinal, como há doze anos, como desde o início dos tempos, é sempre com ela que partilham o destino.

 

 

Os pequeninos aguardaram impacientes o barulho do papel rasgado no abrir dos presentes do dia do seu próprio aniversário.

 

 

Os crescidos, abençoados por figueiras grávidas de figos, fizeram novelos de esperanças. Os pais fumaram cachimbo ou recordaram o tempo em que o faziam, distribuindo silêncios e palavras. E todos filhos hão-de crescer, no mundo imenso, no meio dos irmãos dispersos, atados aos fios que mães e pais vão tecendo para serem cada dia mais longos, seguindo-os sempre, ansiando para eles, silenciosamente, no meio do ruído dos dias, apenas  felicidade.

 

 

 O Jardim fechou às 18:30. E abrirá amanhã… qualquer dia …sempre que a vida nos permita e a memória nos transporte.

 

Com um imenso obrigado à Tina

Sílvia  

Setembro 2008 “

 

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8 Respostas to “Doze Primaveras”

  1. Marazul Says:

    Cara amiga Tina,
    Todas as casas fazem mais sentido quando são habitadas pelas pessoas de que mais gostamos. A sua casa é muito bem descrita pela sua amiga Silvia Alves. Eu acho que é mesmo uma casa dos contos de fadas onde se respira amizade e generosidade por todo o lado.
    Bem-haja.
    Beijos da cor do mar,
    MarAzul

  2. António Guimarães Says:

    Cara amiga Tina

    Parabéns à dona da casa por ter tais amigos e parabéns à escritora pelo magnífico texto, cheio de sensibilidade, talvez próximo de Júlio Dinis.

    Um beijão

    Guimarães

  3. casadatina Says:

    Olá MarAzul,
    Quando falo de “mais sentido” é porque esta casa, para mim, faz sempre sentido! Desde que a sonhei reconstruída, imaginando um jardim onde existia a ruína e a destroços, até às horas em que lá passo sozinha, jardinando ou lendo um livro, tendo por companhia apenas o cantar dos melros na figueira do pátio ou o vento a restolhar nas folhas das árvores. E faz sentido porque faz parte de mim, é o ninho protector, é a continuidade e a concretização de um sonho. Mas na outra casa onde vivo, perto do mar, não sinto a falta da presença física dos amigos, estou habituada a ocupar as minhas noites sozinha, sem no entanto sentir solidão.
    Quanto à Silvia e à sua escrita, deixo-lhe a ela o prazer de aqui vir trocar ideias…
    Espero vê-lo por lá em breve.
    Beijos com o aroma da terra,
    Tina

  4. casadatina Says:

    Bom dia, Guimarães

    A casa tem um espaço tão acolhedor, tão pacífico, que convida a conversas e a partilha, faz crescer as amizades que em cada dia faço por merecer. E de que muito me orgulho, também.
    Quanto à escrita da Sílvia Alves, talvez se surpreenda se der uma espreitadela ao livro “Coisas de Mãe”, editado em 2006, pela Paulinas. É um livro encantador que aqui recomendo, para os pequenos e…os grandes.
    Muito obrigado e até breve!
    Beijos com o aroma da terra,
    Tina

  5. Paula Pereira Says:

    Parabéns Tina, a casa e tudo o que a rodeia está magnífico, desejo-lhe muita sorte e felicidades. Beijinhos

  6. joana Says:

    Tina , gostei muito de estar na casa da eira , a casa é muito fixe , grande , tem ar puro isso é bom!
    Beijinhos da joana búrcio.

    • casadatina Says:

      Olá, Joana!
      Que surpresa! Ainda bem que gostaste. Eu também gostei muito de vos ter cá. Tenho a certeza de que bem depressa vamos encontrar uns dias livres, sem aulas nem futebol, para desfrutarmos da casa todos juntos de novo!
      Boa semana, enquanto vamos sonhando com a brancura e magia da neve!
      Beijinhos com o aroma da terra,
      tina

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