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A casa do tempo

Novembro 29, 2009

    

 

Na memória, a casa é o tempo. Morada das lembranças.

Everaldo Soares Júnior, 1996

Eram quase cem, os anos decorridos sobre a construção da casa, quando ela passou a pertencer-me, pacíficamente. Os telhados, abaulados pelo peso de tantos invernos e das madeiras apodrecidas,  deixavam passar já algumas chuvas que  conheciam os  caminhos certos até ao calor que habitava o interior  da casa..

A arquitecta Mª João delineou o projecto, respeitando as paredes originais e a traça, alguns espaços fulcrais reveladores da cultura e das vivências da família, reconvertendo outros espaços demasiado degradados e de difícil sustentabilidade das paredes originais..

Os rebocos de cal, minados de fungos e rachaduras, foram retirados deixando as paredes de adobe desprotegidas até ser reposto, pelas mãos hábeis do sr. Joaquim que cedo aprendeu técnicas ancestrais; as portas e janelas de madeira ressequidas pelo sol de muitos, tantos verões, mas mesmo assim resistindo e protegendo apesar das muitas frestas, foram restauradas, senão substituídas, com paciência e sabedoria pelas mãos do Sr Jorge, rapaz empenhado em muitos serões. Da cal e pigmentos soube tratar o Sr. Lino.

Ao longo de três anos,  na busca do equilíbrio entre o respeito pelo que nos foi dado e a audácia de introduzir algumas soluções contemporâneas, discutindo e analisando ideias, juntamos saberes de tantos e tão diversos amigos que é impossível nomeá-los aqui, mas sem os quais, decerto  o resultado seria bem diferente. Aqui deixo o meu obrigado à sua imensa generosidade. As obras avançaram devagar; no caos se repôs a ordem, da ruína se reconstruíu  a harmonia, do sonho se fez esta realidade que hoje, com tanto orgulho, habitamos.

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A nascente, o alpendre:  de toda a frente da casa foram deslocadas as camélias e  roseiras para outros espaços de jardim, para que o sol possa entrar logo de manhãzinha;

      

A norte, a glicínia ganhou outro porte, mais digno;

Sobre o portão, nasceu um telheiro que acolhe e protege;

e o espaço do poço foi requalificado, cercado e tem pasto para as ovelhas;

A poente, desapareceu o telheiro do galinheiro  e nasceu a nossa horta;

A sul, as paredes e telhados em derrocada deixaram espaço livre para que um portão em arco, tradicional nestas casas gandarezas, nos abra o páteo ao verde do pomar, do campo, do vale e da encosta…

    e construíu-se um pequeno caminho que nos  leva pelo jardim das roseiras até à eira;

 

 

No sótão sobre a eira, rasgou-se mais uma janela ao nível do olhar, para complementar a luminosidade já existente, que jorra através das janelas/portas existentes ao nível do soalho, e que serviam para colocar directamente da eira as espigas secas  no espigueiro.

  

e onde agora há um espaço tranquilo de lazer e meditação;

No pátio a sul, o telheiro,  a cozinha do forno e o armazém onde se guardavam a salgadeira da carne do porco e do pote azeite,vistos do portão a norte: antes e depois;

         

A sul,

a velha cantareira das ferramentas, as ruínas da coelheira, um amontoado de ferro velho e vidro…desapareceram, simplesmente!

A poente, ao fundo do pátio, onde em épocas passadas habitavam os animais e parte das rotinas  diárias decorriam, nasceram dois quartos virados a nascente e cujo nome respeita a memória de antigos “habitantes”: Piggy e Babe

A norte,no  curral das vacas e no   celeiro foram respeitadas as paredes exteriores (em tijolo de adobe e em adobe (taipa) em bom estado de conservação

A mangedoura, local onde eram alimentadas as vacas, foi demolida tijolo a tijolo.

E todos eles foram reutilizados na construção do portão em arco, a sul;

Estes espaços foram reconvertidos num telheiro amplo, que se abre ao verde do pátio/jardim interior, intimista, propício ao encontro, a festas familiares.

Onde o  tempo é de hoje,  mas para muitos de nós as memórias são tão antigas como a casa.


Mantidas vivas pelas histórias tantas vezes contadas à lareira, recontadas e recriadas a cada encontro da família alargada, que já vai em cinco gerações e que o tempo se encarrega de reunir sem calendário fixo ou hora de sentar à mesa. Informalmente, como a casa sugere, todos aqui se vão encontrando, partilhando, e apenas quando a vontade individual assim determina.

No centenário e reinauguração da casa, no Natal de 96, um brinde alargado aos 40 elementos de toda a família directa que estiveram presentes, representada por 4 gerações.

Numa festa convívio com largas dezenas de primos, de vários graus, que vieram reviver e conviver na casa do “avô, bisavô, trisavô” Carreira, numa tarde de Julho;

Foi um enorme prazer sentir o orgulho da prima Susana,  que aqui veio registar e para que constem as origens remotas da casa do seu bisavô, no futuro da sua família vindoura,  num dia tão importante como o do seu casamento.

Ou o almoço de baptizado da minha mais recente sobrinha neta, a Carolina, para quem os pais escolheram o vestido simples,  o toucado e a capa de seda branca, feitos pelas mãos da minha mãe para o baptizado dos filhos, há tanto, tanto tempo atrás…

Obrigado ao Pedro S. Vieira pela sua imensa paciência a documentar  fotográficamente  a casa em  ruínas. E também ao Sandro e ao Rui pelas fotos da festa da Carolina. E ainda à Helena Rosa, que teve o privilégio de registar a delicadeza das rosas de Maio, no portão sul. Para terminar, não posso deixar de agradecer a gentiliza da  Susana, em tornar aqui públicas algumas fotos da sua vida privada.

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