A casa do tempo

    

 

Na memória, a casa é o tempo. Morada das lembranças.

Everaldo Soares Júnior, 1996

Eram quase cem, os anos decorridos sobre a construção da casa, quando ela passou a pertencer-me, pacíficamente. Os telhados, abaulados pelo peso de tantos invernos e das madeiras apodrecidas,  deixavam passar já algumas chuvas que  conheciam os  caminhos certos até ao calor que habitava o interior  da casa..

A arquitecta Mª João delineou o projecto, respeitando as paredes originais e a traça, alguns espaços fulcrais reveladores da cultura e das vivências da família, reconvertendo outros espaços demasiado degradados e de difícil sustentabilidade das paredes originais..

Os rebocos de cal, minados de fungos e rachaduras, foram retirados deixando as paredes de adobe desprotegidas até ser reposto, pelas mãos hábeis do sr. Joaquim que cedo aprendeu técnicas ancestrais; as portas e janelas de madeira ressequidas pelo sol de muitos, tantos verões, mas mesmo assim resistindo e protegendo apesar das muitas frestas, foram restauradas, senão substituídas, com paciência e sabedoria pelas mãos do Sr Jorge, rapaz empenhado em muitos serões. Da cal e pigmentos soube tratar o Sr. Lino.

Ao longo de três anos,  na busca do equilíbrio entre o respeito pelo que nos foi dado e a audácia de introduzir algumas soluções contemporâneas, discutindo e analisando ideias, juntamos saberes de tantos e tão diversos amigos que é impossível nomeá-los aqui, mas sem os quais, decerto  o resultado seria bem diferente. Aqui deixo o meu obrigado à sua imensa generosidade. As obras avançaram devagar; no caos se repôs a ordem, da ruína se reconstruíu  a harmonia, do sonho se fez esta realidade que hoje, com tanto orgulho, habitamos.

4

A nascente, o alpendre:  de toda a frente da casa foram deslocadas as camélias e  roseiras para outros espaços de jardim, para que o sol possa entrar logo de manhãzinha;

      

A norte, a glicínia ganhou outro porte, mais digno;

Sobre o portão, nasceu um telheiro que acolhe e protege;

e o espaço do poço foi requalificado, cercado e tem pasto para as ovelhas;

A poente, desapareceu o telheiro do galinheiro  e nasceu a nossa horta;

A sul, as paredes e telhados em derrocada deixaram espaço livre para que um portão em arco, tradicional nestas casas gandarezas, nos abra o páteo ao verde do pomar, do campo, do vale e da encosta…

    e construíu-se um pequeno caminho que nos  leva pelo jardim das roseiras até à eira;

 

 

No sótão sobre a eira, rasgou-se mais uma janela ao nível do olhar, para complementar a luminosidade já existente, que jorra através das janelas/portas existentes ao nível do soalho, e que serviam para colocar directamente da eira as espigas secas  no espigueiro.

  

e onde agora há um espaço tranquilo de lazer e meditação;

No pátio a sul, o telheiro,  a cozinha do forno e o armazém onde se guardavam a salgadeira da carne do porco e do pote azeite,vistos do portão a norte: antes e depois;

         

A sul,

a velha cantareira das ferramentas, as ruínas da coelheira, um amontoado de ferro velho e vidro…desapareceram, simplesmente!

A poente, ao fundo do pátio, onde em épocas passadas habitavam os animais e parte das rotinas  diárias decorriam, nasceram dois quartos virados a nascente e cujo nome respeita a memória de antigos “habitantes”: Piggy e Babe

A norte,no  curral das vacas e no   celeiro foram respeitadas as paredes exteriores (em tijolo de adobe e em adobe (taipa) em bom estado de conservação

A mangedoura, local onde eram alimentadas as vacas, foi demolida tijolo a tijolo.

E todos eles foram reutilizados na construção do portão em arco, a sul;

Estes espaços foram reconvertidos num telheiro amplo, que se abre ao verde do pátio/jardim interior, intimista, propício ao encontro, a festas familiares.

Onde o  tempo é de hoje,  mas para muitos de nós as memórias são tão antigas como a casa.


Mantidas vivas pelas histórias tantas vezes contadas à lareira, recontadas e recriadas a cada encontro da família alargada, que já vai em cinco gerações e que o tempo se encarrega de reunir sem calendário fixo ou hora de sentar à mesa. Informalmente, como a casa sugere, todos aqui se vão encontrando, partilhando, e apenas quando a vontade individual assim determina.

No centenário e reinauguração da casa, no Natal de 96, um brinde alargado aos 40 elementos de toda a família directa que estiveram presentes, representada por 4 gerações.

Numa festa convívio com largas dezenas de primos, de vários graus, que vieram reviver e conviver na casa do “avô, bisavô, trisavô” Carreira, numa tarde de Julho;

Foi um enorme prazer sentir o orgulho da prima Susana,  que aqui veio registar e para que constem as origens remotas da casa do seu bisavô, no futuro da sua família vindoura,  num dia tão importante como o do seu casamento.

Ou o almoço de baptizado da minha mais recente sobrinha neta, a Carolina, para quem os pais escolheram o vestido simples,  o toucado e a capa de seda branca, feitos pelas mãos da minha mãe para o baptizado dos filhos, há tanto, tanto tempo atrás…

Obrigado ao Pedro S. Vieira pela sua imensa paciência a documentar  fotográficamente  a casa em  ruínas. E também ao Sandro e ao Rui pelas fotos da festa da Carolina. E ainda à Helena Rosa, que teve o privilégio de registar a delicadeza das rosas de Maio, no portão sul. Para terminar, não posso deixar de agradecer a gentiliza da  Susana, em tornar aqui públicas algumas fotos da sua vida privada.

Anúncios

Etiquetas: , ,

14 Respostas to “A casa do tempo”

  1. Maria João Parreira Says:

    Tina,
    finalmente “um antes e um depois”.
    E finalmente um comentário que há muito estavas à espera.
    Só tenho a dizer que valeu a pena o esforço e dedicação de todos os que se envolveram com este projecto, através das suas ideias e memórias, e aos que agora lhe prolongam vida.
    Sinto-me feliz por fazer parte dessa “familia”.
    Beijos.
    Mª João

    • casadatina Says:

      Querida João

      Este era o post que ia adiando, tavez por o achar um pouco maçador para quem não conhece a casa pessoalmente.
      Mas inadiável por este ser, também, um espaço de reconhecimento do mérito dos amigos.

      Muito obrigado por fazeres, desde o início, parte essencial da grande equipa “adoque” que, através de muitos “brain storm”, ajudaram a dar corpo ao projecto. Contigo na liderança das decisões essenciais, disponível às horas mais impróprias para te colocar dúvidas e questões, senti-me sempre confiante na tua competência técnica e sensibilidade.
      Mesmo quando com tanta audácia escolheste os azulejos amarelos e vermellhos para a tradicional cozinha do forno, conseguiste convencer-me, embora não à 1ª, reconheço. Hoje, não a imagino menos alegre e viva do que está! Obrigado pela tua sabedoria, bom senso e abertura às diversas opiniões, integrando novas soluções.
      Foste e és benvinda na família, desde aquele almoço soalheiro na eira velhinha, ainda com os meus pais, lembras-te? À volta dos teus desenhos e esquiços, enquanto a minha mãe não conseguia perceber como é que dum pátio lamacento íamos fazer um jardim magnífico…
      A minha enorme gratidão contigo é eterna e a casa será sempre também tua.
      Beijos com o aroma da terra,
      tina

  2. Rita Bernarda Says:

    Mais uma vez estas palavras e imagens trazem à ideia tantas e tantas recordações que esta “nossa” casa alberga.
    Tantas festas de família (vindima, S. Martinho, aniversários, matança do porco, Natal, Páscoa, e tantas outras sem motivo), tudo guardado na nossa memória e relembrado pela mais simples imagem daquilo que já foi ou que é agora…o antes e o depois daquilo que é a nossa história e a história desta casa.
    Todos nós temos a agradecer a quem te ajudou a concretizar este projecto e a manter aí reunidas as nossas raízes.
    E a ti Tina, obrigado por ires sempre partilhando connosco estas tuas emoções.

    Beijinho

    Rita

    • casadatina Says:

      Olá, Rita

      Parece que avivar memórias faz bem, neste sec. XXI, das correrias e do consumismo, para darmos valor às coisas simples, fundadoras da nossa identidade familiar e colectiva.
      Obrigado por estares sempre atenta.

      Beijos com o aroma da terra,
      tina

  3. Zaira Azinheiro Says:

    Olá Tina!
    Entrar nesta casa e permanecer nela durante algum tempo é, para mim, um reencontro com o que fomos no passado, o percurso que fizémos e o prazer de desfrutá-la hoje.
    Cada recanto, cada espaço reencontrado, é um misto de vida nova, com um agradável cheiro de lar, de família reencontrada, de afectos guardados desde a infância.
    Foi um projecto arrojado e um acto de muita coragem, de que te deverás sempre orgulhar! A vida vale pelo que somos, pela quantidade de amigos que temos e pelas memórias que deixamos para o futuro.
    É aqui , ao reencontrar as memórias do passado e viver com prazer e bem estar o presente, que criamos novas memórias, que esta casa guardará para as gerações vindouras, e que já se avistam nas pessoas que te rodeiam sempre que vens a esta casa, que eu partilho com prazer.
    Beijinhos
    Zaira

    • casadatina Says:

      Zaira, Querida irmã
      Em tantas horas de indecisão e desespero foste e és uma âncora que não me deixa desistir dos projectos em que me envolvo. Muito obrigado!
      Abençoada ideia a tua, a de repor a sul o portão em arco, igual ao de outras casas aqui na aldeia (e que existiu originalmente a norte).
      Sei que às vezes sentes falta dos cheiros antigo da casa, mas como dizes estamos a lançar novas vivências com as gerações mais novas, com outros amigos e isso traz à casa outros aromas: se não os do feno e do milho seco do passado, aromas de esperança e fortes laços familiares e de amizade, raízes profundas para um futuro que desejo longínquo.
      Beijos com o aroma da terra,
      tina

  4. António Guimarães Says:

    Magnífica reportagem!
    Embora não conheça a casa, acabo de conhecer um magnífico trabalho de restauro e requalificação.
    Pena é que o exemplo não seja seguido por mais particulares e, muito especialmente, pelas entidades oficiais. Fica demonstrado que não é por falta de competência técnica e artística dos arquitectos funcionários…
    Beijos de parabéns para a Tina e para a João.
    Guimarães

    • casadatina Says:

      Obrigado, Amigo Guimarães
      Concordo contigo, quando dizes que devia haver mais restauro! E haveria, se houvesse menos corrupção, mais justiça, etc…
      Seguir um exemplo destes seria mais fácil se os apoios de facto existissem. No meu caso, raríssimo entre tantos restauros, não tive apoios da ADAE e da União Europeia por, antes de mim, outros usarem indevidamente os tais apoios financeiros previstos sem depois abrirem as casas ao turismo rural, e haver nessa altura vários processos em tribunal por uso ilícito dos subsídios. Foi esta a informação verbal que me foi dada num intervalo de dois anos em que me dirigi ao gabinete da ADAE em Leiria.
      Este esforço foi individual e comprometeu financeiramente o meu futuro com o empréstimo bancário, em plena crise interna e internacional; mas não me arrependo. As alegrias que me dá esta casa e os amigos que comigo a partilham ajudam a superar outras questões irrelevantes, quando comparadas com o valor inestimável deste espaço de convívio com os amigos.
      Quanto a conhecer a casa, apareçam na semana a seguir ao natal, estarei por lá com lareira acesa e conversas para actualizar.
      Combinamos por mail, ok? Terei imenso gosto na vossa presença!Afinal, estão tão perto!
      Beijos com o aroma da terra,
      Tina

  5. Anabela Azinheiro Domingues Says:

    Olá Tina
    Não tenho tido tempo para estar na internet, mas agora com uns dias de férias aproveitei para visitar o blog que está um pouco diferente mas muito agradável e completo.
    É bom ver a casa, que traz tão boas recordações, estar cada vez mais viva. A Carolina já tem quase dois anos e aida recordo o dia do seu batizado com o vestido de seda das tias avós, na casa da bisavó. Um dia que certamente recordamos com alegria e ao mesmo tempo saudade, pois o “ti Manel Azinheiro” e a “ti Teresa” com certeza iam ficar felizes com este e os outros acontecimentos.
    Uma vez mais o meu obrigado por abrires a casa a todos os que vão por bem.
    Anabela

    • casadatina Says:

      Olá, Anabela

      É claro que a Carolina já corre pelo pátio, já explora a casa que também é sua
      A casa é, e será sempre, o nosso espaço de enconto das memórias.
      Da família próxima e alargada, e, como dizes, de todos os que vêem por bem.

      Desejo vida longa e sorridente a esta minha sobrinha neta, Carolina, e aos seus pais.
      Aqui ficam muitos beijinhos para todos, com o aroma da terra molhada!
      tina

  6. Fatima Amarante Says:

    Olá!
    Descobri este site por acaso, quando pesquisava artigos sobre casas velhas feitas em adobe.Gostei do que vi e do que li…!!! tambem eu gosto muito de casas antigas, “com alma”…
    Vivo na casa dos meus pais, que já foi dos meus avós e, é tambem uma casa feita em adobes, que espero, um dia vir a recuperar.
    Nao querendo ser maçadora, será que me pode informar se o Sr Joaquim que procedeu ao reboco da casa, ainda faz trabalhos?
    Muito obrigada!

    • casadatina Says:

      Olá, Fátima boa tarde!

      Obrigado pela visita. É bom saber que há pessoas a gostar e a querer recuperar mais casa de barro…
      O Sr. Joaquim ainda trabalha, é um homem com cerca de cinquenta anos mas que começou a trabalhar aos nove, com o seu pai.
      Tenho todo o gosto em lhe enviar o contacto dele.
      Se quiser vir conhecer a casa ao vivo e falar dos processos, do que fiz menos bem e que hoje faria diferente, contacte.
      Beijinhos com o aroma da terra,
      tina

  7. turismo rural en ademuz Says:

    Estoy encantado de encontrar este blog. Quería daros las gracias por publicar esta genialidad. Sin duda he disfrutando cada pedacito de ella. Os te tengo marcados para ver más cosas nuevas de este blog .

    • casadatina Says:

      Muito obrigado pelas suas simpáticas palavras sobre a casa da eira.
      É um projeto a que dedicámos muito carinho e cuidado na recuperação de cada peça, de cada recanto.
      Sim, temos desfrutado muito deste espaço de paz, de tranquilidade e de memórias da infância de 4 gerações.
      Os últimos anos em que publico no facebook, tenho publicado pouco aqui. As minhas desculpas.
      Mas o trabalho mantém-me afastada deste meu lugar, e cada vez passo menos tempo aqui.
      Agora chegou o momento de ceder a casa a outro proprietário, mantendo eu o privilégio de nela passar uma semana por ano, e de aqui continuar a reunir a família alargada, como temos feito nos últimos anos.
      Bem haja pela sua amizade e interesse.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: