Archive for the ‘A casa’ Category

Regresso da primavera, em tons de verde no campo…

Maio 1, 2013

De passagem breve pela casa, entregue a si mesma e às fadas que a cuidam e protegem , encontramo-la sempre tranquila em renovados tons de natureza viva que a rodeia.

Acordamos com o som dos pássaros que ao longo do dia nos visitam, ora chilreando no pomar ou nos campos cultivados a sul, ora na relva do pátio, onde as poupas , ave tranquila por aquelas paragens, nos surpreendem sem pressa para que as possamos admirar bem de perto. Gaios, melros, rolas são às dezenas nestas manhãs de sol.

Perdemo-nos em contemplação de tanta serenidade e harmonia, e dali trazemos sempre a energia redobrada para prosseguir a jornada.

casa da eira a  nascente

O jardim a nascente, com o vale de salgueiros e encosta de pinhal ao fundo;

pomar e prados a sul                       o verde amarelo do pomar e prado, a sul da eira;Sobreiro a poente                          o verde seco da floresta, a poente…Eira a norte                                                                                                     e o verde mais sombrio a norte.

A casa do tempo

Novembro 29, 2009

    

 

Na memória, a casa é o tempo. Morada das lembranças.

Everaldo Soares Júnior, 1996

Eram quase cem, os anos decorridos sobre a construção da casa, quando ela passou a pertencer-me, pacíficamente. Os telhados, abaulados pelo peso de tantos invernos e das madeiras apodrecidas,  deixavam passar já algumas chuvas que  conheciam os  caminhos certos até ao calor que habitava o interior  da casa..

A arquitecta Mª João delineou o projecto, respeitando as paredes originais e a traça, alguns espaços fulcrais reveladores da cultura e das vivências da família, reconvertendo outros espaços demasiado degradados e de difícil sustentabilidade das paredes originais..

Os rebocos de cal, minados de fungos e rachaduras, foram retirados deixando as paredes de adobe desprotegidas até ser reposto, pelas mãos hábeis do sr. Joaquim que cedo aprendeu técnicas ancestrais; as portas e janelas de madeira ressequidas pelo sol de muitos, tantos verões, mas mesmo assim resistindo e protegendo apesar das muitas frestas, foram restauradas, senão substituídas, com paciência e sabedoria pelas mãos do Sr Jorge, rapaz empenhado em muitos serões. Da cal e pigmentos soube tratar o Sr. Lino.

Ao longo de três anos,  na busca do equilíbrio entre o respeito pelo que nos foi dado e a audácia de introduzir algumas soluções contemporâneas, discutindo e analisando ideias, juntamos saberes de tantos e tão diversos amigos que é impossível nomeá-los aqui, mas sem os quais, decerto  o resultado seria bem diferente. Aqui deixo o meu obrigado à sua imensa generosidade. As obras avançaram devagar; no caos se repôs a ordem, da ruína se reconstruíu  a harmonia, do sonho se fez esta realidade que hoje, com tanto orgulho, habitamos.

4

A nascente, o alpendre:  de toda a frente da casa foram deslocadas as camélias e  roseiras para outros espaços de jardim, para que o sol possa entrar logo de manhãzinha;

      

A norte, a glicínia ganhou outro porte, mais digno;

Sobre o portão, nasceu um telheiro que acolhe e protege;

e o espaço do poço foi requalificado, cercado e tem pasto para as ovelhas;

A poente, desapareceu o telheiro do galinheiro  e nasceu a nossa horta;

A sul, as paredes e telhados em derrocada deixaram espaço livre para que um portão em arco, tradicional nestas casas gandarezas, nos abra o páteo ao verde do pomar, do campo, do vale e da encosta…

    e construíu-se um pequeno caminho que nos  leva pelo jardim das roseiras até à eira;

 

 

No sótão sobre a eira, rasgou-se mais uma janela ao nível do olhar, para complementar a luminosidade já existente, que jorra através das janelas/portas existentes ao nível do soalho, e que serviam para colocar directamente da eira as espigas secas  no espigueiro.

  

e onde agora há um espaço tranquilo de lazer e meditação;

No pátio a sul, o telheiro,  a cozinha do forno e o armazém onde se guardavam a salgadeira da carne do porco e do pote azeite,vistos do portão a norte: antes e depois;

         

A sul,

a velha cantareira das ferramentas, as ruínas da coelheira, um amontoado de ferro velho e vidro…desapareceram, simplesmente!

A poente, ao fundo do pátio, onde em épocas passadas habitavam os animais e parte das rotinas  diárias decorriam, nasceram dois quartos virados a nascente e cujo nome respeita a memória de antigos “habitantes”: Piggy e Babe

A norte,no  curral das vacas e no   celeiro foram respeitadas as paredes exteriores (em tijolo de adobe e em adobe (taipa) em bom estado de conservação

A mangedoura, local onde eram alimentadas as vacas, foi demolida tijolo a tijolo.

E todos eles foram reutilizados na construção do portão em arco, a sul;

Estes espaços foram reconvertidos num telheiro amplo, que se abre ao verde do pátio/jardim interior, intimista, propício ao encontro, a festas familiares.

Onde o  tempo é de hoje,  mas para muitos de nós as memórias são tão antigas como a casa.


Mantidas vivas pelas histórias tantas vezes contadas à lareira, recontadas e recriadas a cada encontro da família alargada, que já vai em cinco gerações e que o tempo se encarrega de reunir sem calendário fixo ou hora de sentar à mesa. Informalmente, como a casa sugere, todos aqui se vão encontrando, partilhando, e apenas quando a vontade individual assim determina.

No centenário e reinauguração da casa, no Natal de 96, um brinde alargado aos 40 elementos de toda a família directa que estiveram presentes, representada por 4 gerações.

Numa festa convívio com largas dezenas de primos, de vários graus, que vieram reviver e conviver na casa do “avô, bisavô, trisavô” Carreira, numa tarde de Julho;

Foi um enorme prazer sentir o orgulho da prima Susana,  que aqui veio registar e para que constem as origens remotas da casa do seu bisavô, no futuro da sua família vindoura,  num dia tão importante como o do seu casamento.

Ou o almoço de baptizado da minha mais recente sobrinha neta, a Carolina, para quem os pais escolheram o vestido simples,  o toucado e a capa de seda branca, feitos pelas mãos da minha mãe para o baptizado dos filhos, há tanto, tanto tempo atrás…

Obrigado ao Pedro S. Vieira pela sua imensa paciência a documentar  fotográficamente  a casa em  ruínas. E também ao Sandro e ao Rui pelas fotos da festa da Carolina. E ainda à Helena Rosa, que teve o privilégio de registar a delicadeza das rosas de Maio, no portão sul. Para terminar, não posso deixar de agradecer a gentiliza da  Susana, em tornar aqui públicas algumas fotos da sua vida privada.

O meu avô

Janeiro 5, 2008

o-meu-avo.jpg

Este é um retrato do meu avô, o fundador da casa.

Sabemos, pelas datas encontradas em adobes de barro nas paredes interiores durante as obras de restauro, que em 1902 já tinha começado a construir a casa e que as obras duraram até, pelo menos, 1906 data existente  junto ao telhado. Não se encontram outros registos, mas percebe-se que pelo menos durante 4 anos decorreu o levantamento das paredes, adobe sobre adobe, segundo técnicas ancestrais, que prevêm o arejamento subterrâneo e garantem aos moradores a protecção contra os rigores da natureza.

Não tenho memórias do meu avô, a não ser das histórias que ouvi na infância a seu respeito. Sei que foi um dos poucos habitantes do lugar, naquela data. E que diziam tratar-se de um homem austero, exigente, dono e adinistrador de vários hectares de terras de cultivo, oliveiras, vinha e pinhal. Dedicava-se aos negócios de madeiras, pelo que passava muitos dias sozinho a cavalo pelas matas e pinhais. Diziam até que foi por isso que a minha avó enlouqueceu nova, que não suportava as saudades…

Mas também sei que o meu avô era pequenino e usava chapéu. Como o Senhor Valéry…

O senhor Valéry era distraído. Não confundia a mulher com o chapéu, como sucedia com algumas pessoas, mas confundia o chapéu com o seu cabelo.  

A ideia que o senhor Valéry tinha é que andava sempre de chapéu, mas não era verdade.  

Julgando tratar-se do chapéu, o senhor Valéry, ao passar por uma senhora, tinha por costume levantar ligeiramente os cabelos à frente da testa, por cortesia. As senhoras sorriam muito, por dentro, com a distração, mas agradeciam a gentileza.     

Com o medo do ridículo o senhor Valéry passou a precaver-se e antes de sair de casa enterrava o seu chapéu de coco até ao fundo da cabeça para ter a certeza de que o levava.  

O senhor Valéry até fez o desenho do seu chapéu e da cabeça de costas  

      e também de frente   

O senhor Valéry enterrava tanto o chapéu sobre a cabeça que agora era com grande dificuldade que o conseguia tirar.   

Quando uma senhora passava pelo senhor Valéry, na rua, ele tentava com as duas mãos levantar um pouco o chapéu, mas não conseguia.  

As senhoras prosseguiam o seu caminho e pelo canto do olho viam o senhor Valéry a suar, com a cara vermelha de impaciência, e com uma mão de cada lado a puxar para cima o chapéu como se faz às rolhas das garrafas difíceis. Como não podiam esperar pelo fim da acção do senhor Valéry, que certas vezes durava longos minutos, as senhoras afastavam-se antes de assistir ao desenlace da situação.  

O senhor Valéry passava, assim, certas vezes, por malcriado, o que era injusto.

Gonçalo Tavares, O Senhor Valéry, 2002

A Eira

Novembro 17, 2007

eira-3a.jpg 

Alvor da Lua nas eiras,

Nem linhos de fiandeiras,

Nem véus de noivas ou freiras,

Nem rendas das ondas do mar!…

Sobre espigas d’oiro bailam ceifeiras,

Na alegria argêntea do clarão do luar!…  

Ai medas de prata e oiro,

De lua branca e pão loiro,

Malhadas no malhadoiro,

A enfeitiçar e a fulgir! 

Oh, bailai à volta desse bom tesoiro,

Que é a côdea negra que ceais a rir!… 

Quem nas ladeiras e prados,

Com as lanças dos arados,

Abriu sulcos e valado,  

Na terra gélida e nua? 

Oh, bailai à volta desses bois deitados,  

Que estão d’olhos tristes  adorando a Lua! … (…) 

Guerra Junqueiro, Os Simples, 1891

Hoje um espaço tranquilo, onde a luz do fim da tarde convida a momentos de sernidade e paz, foi em tempos um espaço de trabalho árduo para homens, mulheres e juntas de bois;  no final das colheitas, cantava-se e dançava-se para celebrar mais um ano de celeiro cheio.

A casa

Novembro 1, 2007

forno5.jpg

A casa. Era do meu avô. Depois foi a casa da minha mãe, a nossa casa.  Agora é a minha casa.  O blogue casadatina surge depois da reconstrução desta casa rural centenária, outrora uma casa agrícola. Pela necessidade de partilhar o que de melhor lá acontece com todos os amigos e conhecidos que por lá passam uns dias a disfrutar da tranquilidade desta pequena quinta.  Sendo uma casa rural de construção em terra da arquitectura tradicional, facilmente nos deixamos seduzir pelos ninhos de pardal nos buracos rústicos dos adobes de barro, pela água refrescante que corre no tanque nos dias quentes ou pelas cores e aromas da eira sobre o pomar, no outono.    Pretendo desta forma divulgar aqui as vivências mais importantes da casa bem como os detalhes que nos surpreendem e acordam memórias antigas: contadores de histórias à volta da lareira, as tardes na cozinha do forno a fazer compotas  trazendo de volta à casa o cheiro de outras gerações passadas e ainda a redescoberta de textos e poemas de autores portugueses.  Este blogue será construído com imagens do dia a dia da casa que me apeteça partilhar e textos que se espera avivem na nossa memória algumas tradições da nossa  cultura; mas não terá qualquer compromisso de regularidade.

O nome

Outubro 25, 2007

glicinia.jpg

  • Foto de Evaldo Barros 

Julgo ouvir a chuva no tépido pinhal

mas pode ser engano

ainda há pouco o vento limpara o céu anoitecido

por entre o sussurro do lamuriado tédio

alguém se aproxima em bicos de pés

por entre hortências e dálias     

    de ambas minha mãe gostava

(…)

À casa que teve darei um nome

das hortências ou das dálias

    de ambas minha mãe gostava.

Fernando Namora, Nome para uma casa                                                                                                                                      

Aos cachos de flores que cobriam a velha parede a norte e perfumavam as tardes de Primavera perto do poço, a minha mãe chamava lilases. Tal como lilás era o meu vestido novo de Páscoa que a minha mãe me fez, numa primavera longínqua. E as flores que semeavam a sua blusa de seda branca, há ainda poucos anos.  Agora a glicínia tem um suporte mais firme para nos saudar à chegada com as suas hastes vigorosas. E finalmente recuperou o seu nome, tantos anos perdido. E à casa, que nome darei?  

O pátio…

Outubro 23, 2007

O carro de madeira… memórias de uma infância…

O pátio, outrora um local de árduo trabalho no cuidado diário dos animais que o habitavam, converteu-se num espaço aprazível de lazer e contemplação da natureza.  No espaço fechado, onde a vida da casa se desenrolava com total privacidade, rasgámos uma abertura para o verde dos campos e do pomar de laranjeiras, reutilizando os tijolos que suportavam a manjedoura na construção deste portão tradicional em arco, ainda visível em algumas  casas alpendradas da povoação.

O carro de madeira, construído pelo meu pai, foi encontrado num dos sótãos,  acordando a memória de tantas brincadeiras durante a infância…