Tons de Outono

Novembro 23, 2010

 

Este Outono, o ácer rubrum (afinal, desculpem é um Liquidambar styraciflua ) brindou-nos com uma copa de cores intensas, em contraste com uma gama de verdes em fundo para que luz e calor inundassem os nossos sentidos, mesmo  em dias cinzentos.

 

Poema de Outono

 

Outono vem em vulvas claridades…

Vamos os dois esp´rá-lo de mãos dadas:

Tu, desfolhando as rosas das estradas,

E eu, escutando o choro das saudades…

 

Outono vem em doces suavidades

E a acender fogueiras apagadas

Andam almas no céu, ajoelhadas

E a terra reza a prece das Trindades…

 

Coram no bosque os musgos e os fetos.

Vogam nos lagos pálidos e quietos,

Como gôndolas d’oiro, as borboletas.

 

Meu Amor! Meu Amor! Outono vem…

Beija os meus olhos roxos, beija-os bem!

Desfolha essas primeiras violetas!…

 

Florbela Espanca in Poesia: 1918-1930

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A casa do tempo

Novembro 29, 2009

    

 

Na memória, a casa é o tempo. Morada das lembranças.

Everaldo Soares Júnior, 1996

Eram quase cem, os anos decorridos sobre a construção da casa, quando ela passou a pertencer-me, pacíficamente. Os telhados, abaulados pelo peso de tantos invernos e das madeiras apodrecidas,  deixavam passar já algumas chuvas que  conheciam os  caminhos certos até ao calor que habitava o interior  da casa..

A arquitecta Mª João delineou o projecto, respeitando as paredes originais e a traça, alguns espaços fulcrais reveladores da cultura e das vivências da família, reconvertendo outros espaços demasiado degradados e de difícil sustentabilidade das paredes originais..

Os rebocos de cal, minados de fungos e rachaduras, foram retirados deixando as paredes de adobe desprotegidas até ser reposto, pelas mãos hábeis do sr. Joaquim que cedo aprendeu técnicas ancestrais; as portas e janelas de madeira ressequidas pelo sol de muitos, tantos verões, mas mesmo assim resistindo e protegendo apesar das muitas frestas, foram restauradas, senão substituídas, com paciência e sabedoria pelas mãos do Sr Jorge, rapaz empenhado em muitos serões. Da cal e pigmentos soube tratar o Sr. Lino.

Ao longo de três anos,  na busca do equilíbrio entre o respeito pelo que nos foi dado e a audácia de introduzir algumas soluções contemporâneas, discutindo e analisando ideias, juntamos saberes de tantos e tão diversos amigos que é impossível nomeá-los aqui, mas sem os quais, decerto  o resultado seria bem diferente. Aqui deixo o meu obrigado à sua imensa generosidade. As obras avançaram devagar; no caos se repôs a ordem, da ruína se reconstruíu  a harmonia, do sonho se fez esta realidade que hoje, com tanto orgulho, habitamos.

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A nascente, o alpendre:  de toda a frente da casa foram deslocadas as camélias e  roseiras para outros espaços de jardim, para que o sol possa entrar logo de manhãzinha;

      

A norte, a glicínia ganhou outro porte, mais digno;

Sobre o portão, nasceu um telheiro que acolhe e protege;

e o espaço do poço foi requalificado, cercado e tem pasto para as ovelhas;

A poente, desapareceu o telheiro do galinheiro  e nasceu a nossa horta;

A sul, as paredes e telhados em derrocada deixaram espaço livre para que um portão em arco, tradicional nestas casas gandarezas, nos abra o páteo ao verde do pomar, do campo, do vale e da encosta…

    e construíu-se um pequeno caminho que nos  leva pelo jardim das roseiras até à eira;

 

 

No sótão sobre a eira, rasgou-se mais uma janela ao nível do olhar, para complementar a luminosidade já existente, que jorra através das janelas/portas existentes ao nível do soalho, e que serviam para colocar directamente da eira as espigas secas  no espigueiro.

  

e onde agora há um espaço tranquilo de lazer e meditação;

No pátio a sul, o telheiro,  a cozinha do forno e o armazém onde se guardavam a salgadeira da carne do porco e do pote azeite,vistos do portão a norte: antes e depois;

         

A sul,

a velha cantareira das ferramentas, as ruínas da coelheira, um amontoado de ferro velho e vidro…desapareceram, simplesmente!

A poente, ao fundo do pátio, onde em épocas passadas habitavam os animais e parte das rotinas  diárias decorriam, nasceram dois quartos virados a nascente e cujo nome respeita a memória de antigos “habitantes”: Piggy e Babe

A norte,no  curral das vacas e no   celeiro foram respeitadas as paredes exteriores (em tijolo de adobe e em adobe (taipa) em bom estado de conservação

A mangedoura, local onde eram alimentadas as vacas, foi demolida tijolo a tijolo.

E todos eles foram reutilizados na construção do portão em arco, a sul;

Estes espaços foram reconvertidos num telheiro amplo, que se abre ao verde do pátio/jardim interior, intimista, propício ao encontro, a festas familiares.

Onde o  tempo é de hoje,  mas para muitos de nós as memórias são tão antigas como a casa.


Mantidas vivas pelas histórias tantas vezes contadas à lareira, recontadas e recriadas a cada encontro da família alargada, que já vai em cinco gerações e que o tempo se encarrega de reunir sem calendário fixo ou hora de sentar à mesa. Informalmente, como a casa sugere, todos aqui se vão encontrando, partilhando, e apenas quando a vontade individual assim determina.

No centenário e reinauguração da casa, no Natal de 96, um brinde alargado aos 40 elementos de toda a família directa que estiveram presentes, representada por 4 gerações.

Numa festa convívio com largas dezenas de primos, de vários graus, que vieram reviver e conviver na casa do “avô, bisavô, trisavô” Carreira, numa tarde de Julho;

Foi um enorme prazer sentir o orgulho da prima Susana,  que aqui veio registar e para que constem as origens remotas da casa do seu bisavô, no futuro da sua família vindoura,  num dia tão importante como o do seu casamento.

Ou o almoço de baptizado da minha mais recente sobrinha neta, a Carolina, para quem os pais escolheram o vestido simples,  o toucado e a capa de seda branca, feitos pelas mãos da minha mãe para o baptizado dos filhos, há tanto, tanto tempo atrás…

Obrigado ao Pedro S. Vieira pela sua imensa paciência a documentar  fotográficamente  a casa em  ruínas. E também ao Sandro e ao Rui pelas fotos da festa da Carolina. E ainda à Helena Rosa, que teve o privilégio de registar a delicadeza das rosas de Maio, no portão sul. Para terminar, não posso deixar de agradecer a gentiliza da  Susana, em tornar aqui públicas algumas fotos da sua vida privada.

Yoga na aldeia

Outubro 10, 2009

Vieram da cidade grande em busca da tranquilidade, da energia da natureza.

Enquanto não chegavam as tão prometidas chuvas do Outono , adormeceram com o piar da coruja,  nos pinheiros ali perto…

noite

e acordaram cedo na madrugada ao cantar dos galos na vizinhança,

para saborearem a luz soalheira dos dias.

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Povoaram a casa de risos e de silêncios, e de harmonia na entoação dos mantras… 4Entretanto à cozinha  chegavam os produtos da natureza, gentilmente seleccionados e trazidos  pela vizinhança e doces  preparados por mãos generosas, que tranquilamente iam chegando à mesa.

laranjas tarde

M Peq. almoço

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E na partilha das emoções, entre lágrimas e sorrisos, sentimos uma força nova, pacificadora.

GRUPO YOGA-A

Muito Obrigado a todos, por terem vindo.

E agradeço à Marta Ré,  pela luminosa  foto do grupo!

Mais fotos incríveis?!

http://yogabindu.blogspot.com/2009/10/fotos-do-iii-retiro-de-yoga-casa-da.html

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer.

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…

 

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no sítio deste outeiro

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu.

(…)

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, 1911-1912

As fadas descem à casa

Setembro 3, 2009

Enquanto decorrem os dias longos  de Verão, tempo de sol e dos amores breves,  aproveitamos para deixar que a cor e o calor  nos invada os sentidos, nas suas  diversas facetas, com as suas múltiplas texturas e sabores, dos pés à cabeça.

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Festejamos as dádivas da natureza:  respiramos o cheiro do milho a secar nas eiras, que trazemos impregnado nas memórias da nossa infância;

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Passeamos entre girassóis semeados por mãos pequeninas, embalados por sons de cigarras e o zumbido das abelhas;

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e deixamos que uma paleta  de cores das frutas sãs, colhidas sem pressa…

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…se espalhem em aromas pela cozinha grande, adocicando os dias a quem por ali preguiça as tardes mornas e se conservem em saborosas compotas na despensa, que nos hão-de alegrar as manhãs frias e cinzentas do ano.

Mas há quem aproveite para recolher da natureza, ao redor da casa, outros elementos…

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que em tão hábeis mãos rapidamente se transformam em estranhos seres, que repousam à tardinha pela casa.

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Dia após dia, nascem novas criaturas mágicas que nos espreitam…

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E para a última noite,  tudo está em ordem.

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Reunem-se na casa alguns familiares da aldeia, novos e velhos amigos, para celebrar a alegria da vida e  fruir do prazer e da beleza da arte de criar.

E quando a lua finalmente vem, a magia acontece…

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Todos estamos muito gratos ao Evaldo por aceder a fazer esta semana de residência artística na casa e pela sua imensa generosidade na partilha.

 

 

 

Quando a tarde cai

e o céu acende as estrelas

 para iluminar

mais uma noite na terra,

as criaturas mágicas

despertam

para mais uma longa jornada

de cuidados com a natureza.

As pequeninas fadas

entoam canções milenares

enquanto desabrocham as flores,

amadurecem os frutos,

fazem brotar dos campos

a verde vegetação

que cobre a paisagem imensa…

Preparam o leito dos animais,

adormecem os pássaros,

colhem o mais doce mel

e minúsculas gotas de orvalho…

Após estarem cumpridas

todas as tarefas

cirandam pela Eira

e brincam ao luar.

À sua presença

o bosque é inundado

de encantamentos,

e num passe de mágica

todas as criaturas criam vida

e celebram a alegria de viver.

Evaldo Barros, 30 de Agosto

Páscoa na eira

Abril 17, 2009

O tempo da Páscoa na aldeia é um regresso à minha infância, donde vem ainda o cheiro das amêndoas que a minha mãe guardava por vários meses dentro da cristaleira, e a memória das flores  amarelas e roxas que colhíamos nos campos e com que fazíamos coroas para nos enfeitarmos, durante as longas férias da Primavera. 

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Este ano, fomos  surpreendidos por um grupo de homens e mulheres que, retomando recentemente uma das tradições mais remotas da aldeia, vieram Cantar prás Almas,  cantando de porta em porta. e1

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Este costume da região tem um forte cariz  religioso ( pois vão recolhendo as esmolas para a celebração de missas pela salvação das almas do Purgatório ), mas ao mesmo tempo um traço vincadamente popular  e genuíno. 

 

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 cantar

 

 

 

 

 

 

Apesar da fraca qualidade técnica do vídeo, vale a pena espreitar e ouvir:

http://www.youtube.com/watch?v=iq97kvIa5NY

Nesta passagem demorada na casa, onde ninfas e elfos domésticos iam cozinhando e arrumando,  trazendo e levando, senti-me verdadeiramente de férias.

  Trago ainda comigo na bagagem o chilrear dos pássaros que enchiam o verde do páteo logo ao amanhecer.  

E todos… tantos os mimos recebidos!…

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 Obrigado ao Luís Caldas pelo vídeo e ao Evaldo Barros pelas fotos. 

Narcisos

Fevereiro 13, 2009

Há alguns dias já, andava eu a pensar com alguma espectativa acerca da exuberância dos narcisos neste inverno tão chuvoso. É que desde há 3 anos ( decorriam ainda as obras da casa),  por esta altura, eles nos brindam com as suas flores perfeitas e perfumadas, iluminando o jardim da frente, dando as boas vindas a quem chega, ou simplesmente perfumando a caminho a quem passa…

Confesso que  nestas últimas semanas deixei a casa entregue a si mesma e às  fadas boas que habitam as vizinhanças, sempre atentas e cuidadosas durante as minhas ausências. Sem elas, as minhas noites de sono não seriam decerto tão tranquilas.

Ontem uma delas  quis partilhar comigo a sua alegria  pela beleza do canteiro de que disfruta diáriamente, pois que árduamente transportou a terra do pinhal para a preparação do jardim e pacientemente comigo zelou pela distribuição equilibrada dos bolbos de espécies variadas, que alegram o canteiro ao longo de todo o ano.

Estas  fotos  da  Rita, que me surpreenderam na  minha caixa de correio electrónico, vieram iluminar também o meu dia.     

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narcisos6Jardim

Ontem escrevi poemas
Nos canteiros do meu jardim.
Animada, afogueada, em alvoroço,
Abraçada a vasos, folhas e pétalas,
Inspirada ao aspirar o aroma silvestre
Das flores, das plantas, da seiva,
Declinei o lápis sedutor e o papel,
Tomei a terra, o ancinho e a colher,
Decidida, quebrei ressequidas ramagens,
Exaltada, daninhas ervas arranquei,
Ao solo me lancei, confiante, e mergulhei
Minhas mãos, na terra fértil e gentil.
Tirei pedras e raízes, desenhei linhas
De promissores bolbos, enterrados
Sob o húmus revolvido e alisado.
Sementes lancei, em métrica cuidada.
Azáleas rimei com admiráveis ciclamens.
Margaridas de fogosas vestes combinei
Com amarelos narcisos em sono recatado.
Confortei o cândido limoeiro e ergui, por fim,
Para o céu, o corpo cansado e feliz (…)

Ilona Bastos

Uma morte anunciada

Janeiro 28, 2009

Foi a meio do Verão, ainda os dias iam grandes,  que reparámos que ela não estava bem: tristonha, murcha e tão amarelada que parecia anunciar um Outono precoce.  

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Com a passagem do tempo e a mudança da estação, fomo-nos esquecendo dos seus dias tristes, porque tudo ao nosso redor se transformava em tons pastel.  

Neste sábado, logo de manhãzinha, abri a janela do meu quarto pequenino sobre o pátio, para deixar entrar o chilrear do pássaros.

Foi então que a vi… a velha figueira estava tombada por terra.

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As suas raízes, já muito frágeis, não tinham resistido à força do vendaval que sobre a casa se abateu na noite anterior.

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Restam-nos ainda na despensa uns frascos de compota dos seus figos.

 E num canto esquecido da memória, a despedida serena da minha querida mãe, que deles me pediu nos últimos momentos de lucidez da sua longa vida.

 

Yoga em Dezembro

Dezembro 13, 2008

Num fim de semana chuvoso e frio, a antecipar o Inverno que se aproxima, o Simão trouxe consigo gente muito tranquila para mais um retiro de Yoga. Mas a casa que em Março o recebeu com sol e calor e se desdobrou em espaços múltiplos para actividades luminosas no exterior, revelou-se agora um espaço mais cinzento, mais silencioso, mais intimista.

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Partilhamos jantares em silêncio, quebrado pelo som da  chuva a cair no telhado, saboreamos a comida devagar, à luz  fogueante da lareira acesa,   aconchegados  na franqueza de um abraço ou na calma com que nos envolve  um olhar sereno.

 

                                         

                                       
“Não és o corpo, não és os sentimentos e não és os pensamentos.
És a consciência silenciosa que observa tudo isso.
Repousa a mente nesse silêncio e descobrirás quem realmente és.”
Aruna

Foi muito forte, física e emocionalmente damos muito. Mas recebemos sempre mais…

Obrigado ao Ricardo Marques por partilhar as suas fotos e à Joana Soares por partilhar as suas leituras…

Deixo aqui também a receita de um prato tradicional da região, as migas:

Ingredientes:

 

1 Broa de milho

1 tigela de feijão frade

2 molhos de nabiça

10 dentes de alho

+ ou – 6 dl de azeite

Sal marinho não refinado

 

Escolhe-se o feijão frade, depois de bem seco na eira.

Amassa-se a broa com a farinha do milho seco e debulhado na eira, e coze-se em forno aquecido com lenha. 

Apanham-se as nabiças da horta, onde cresceram tranquilamente com o estrume dos animais e a chuva deste Inverno.

Põe-se o feijão frade de molho umas horas antes. Coze-se em água e sal, o tempo bastante para ficar inteiro. Escorre-se e reserva-se.

Parte-se a broa aos pedacinhos bem pequenos. Reserva-se.

Pica-se o alho.

Lava-se e escolhe-se a nabiça, aproveitando troncos e folhas e cortam-se bem finos.

Cozem-se em bastante água e sal, já a ferver, durante cinco ou seis minutos (mexem-se para ficarem verdes). Escorrem-se bem no escorredor e reservam-se (regam-se com um pouco de azeite para se manterem verdes).

Põe-se o azeite num tacho com o alho picado e deixa-se fritar um pouco, sem alourar;

Junta-se a broa em pedacinhos e vai-se mexendo até alourar um pouco, depois junta-se também o feijão frade e mistura-se bem. Desliga-se o lume e juntam-se as nabiças cozidas, misturando bem.

Estão as migas da casa prontas a servir.

Bom apetite!

 

Celeiro das Artes

Outubro 18, 2008

Para um fim de semana deste soalheiro Outono, a casa acolheu alguns amigos distantes que, para além do prazer do reencontro e das conversas que deixaram a germinar alguns projectos, contribuiram para momentos de partilha de várias artes.

Ao longo das horas luminosas do dia, dos passeios pelos arredores iam chegando pequenas criações efémeras, embelezando a mesa onde desaguavam iguarias bem diversas e apetitosas, trazidas por todos.

 De longe iam chegando ecos de amigos ausentes e que, graças às novas tecnologias, nos fizeram sentir um pouco da alegria nesses jardins tão musicais, pois lá tocavam nesse dia.

Ao cair da noite, o antigo celeiro da casa foi tomado de assalto por “mui nobres cavaleiros” de capa e espada, arautos de um pretenso Conde de Barros e Gessos, querendo avaliar da honra e a pureza de pensamentos da donzela que a habita, apanhando todos de surpresa, tanto a suposta donzela quanto o engessado conde. Foi um momento verdadeiramente hilariante, gerado nas artes da recriação histórica, e pura invenção para um local tão plebeu.

 A noite estava tão fria que nem o bom tinto nem a sangria faziam aquecer os corpos; assim, foi já no aconchego da lareira no interior da casa que continuaram a desenrolar-se as palavras, as imagens e os sons, por vozes e mãos bem diversas:

Por momentos, levaram-nos até castelos flutuantes onde as ninfas eram as únicas companheiras de um velho rei…

” (…) Foram chamadas pela riqueza de meus sonhos, dissera-me Calina, a primeira que chegou. Trouxe-me alimentos e uma vela amarela, para acender quando minha alma pressentisse a escuridão. Nunca haverá trevas nem sonhos maus, disse-me num sopro.

(…) Lísias era a mais velha de todas e a que possuía o espírito mais liberto. Cabelos em caracóis às vezes loiros, outras vezes escuros, chegava sempre com imenso sorriso, dava-me banho e fazia massagens às costas com suas mãos coloridas. Contava-me histórias e brincava às marionetas como uma criança mágica. Deu-me o dom da alegria e o poder do verbo acreditar…

(…) Tirsa foi a que ficou mais tempo! Pequenina e ágil, pele cor de bronze e cabelos castanhos, dava-me banhos e preparava deslumbrantes banquetes. Percorria as imediações à procura dos melhores temperos e ingredientes para seus acepipes. Fazia tudo com apenas um braço enquanto o outro, imaginário, dançava suavemente enquanto narrava as mais belas histórias de amor…

(…) Sandra trouxe-me flores e pérolas e Selena uma esponja para banhos suave como nuvens de açúcar. Enquanto Selena passava suavemente a esponja sobre meu corpo, Sandra cantava melopeias e narrava histórias engraçadas. Depois Selena massajava meus pés ou o corpo todo com óleos trazidos de terras distantes…

O rei, exilado em seus próprios domínios, recorda agora aquele tempo ao qual chamou “A Era das Ninfas”. Solitário entre convivas de madeira e papel, ainda dança pelos salões em noites de lua clara, enquanto suas lágrimas espalham-se sobre os céus da invicta cidade.”

Evaldo Barros, As Mãos das Ninfas, 2008

Depois, embarcamos numa outra viagem pela Rota da Seda, feita de fragmentos de luz e cores do oriente, acordando memórias de viagens passadas.

A elas se juntaram, logo de seguida, no recente vídeoclip dos swordswing, a música, imagens mágicas e as palavras  do João Pedro Costa, que repetidamente questionavam Como é o Corpo de Deus? …                

 www.myspace.com/swordswing

E, antes do final da noite, houve ainda tempo para ouvir Mistic, criado pelo elemento mais novo do grupo que, à falta de companheiros de brincadeira da sua idade, ao longo do dia decidiu explorar um novo programa do pai e nos surpreendeu apresentando a sua experiência.

Na casa, afinal, couberam todos os que puderam vir.

E cada um deixou nos outros, estou certa, um rasto da sua passagem…

Doze Primaveras

Setembro 23, 2008

A casa  faz muito mais sentido quando é habitada pelas pessoas de que mais gostamos:  tardes e noites tranquilas, conversas que fluem à roda da mesa ou das espreguiçadeiras, a pretexto de um livro, direitos de autor, uma viagem ou até os filhos. Tertúlias serenas a contrastar com a alegria das crianças que enche o pátio de corridas e gargalhadas, aproveitando o calor do sol para os banhos no tanque ou o escuro da noite para se aventurarem às escondidas nos recantos mais sombrios da casa.

É por esta boa energia que todos trazem à casa, uns e outros, que é sempre um enorme prazer partilhar a casa com os Amigos. Que por sua vez trazem novos amigos e assim a rede se vai alargando quase por acaso, no encontro das conversas.

E porque são eles os principais protagonistas nesta história, decidi aceitar a generosidade da Sílvia Alves, que com a sua enorme sensibilidade e sabedoria teceu as palavras e  fotos que aqui vos deixamos, para que o aroma e calor da festa não perdure apenas nas nossas lembranças. 

“Numa  casa onde continuamos a ter céu e sol depois de entrarmos, construída de tempo, afectos e paciência, recebe-nos uma bonita fada sorridente, a quem vamos devolvendo sorrisos ao reencontrá-la num cesto de pão fresco, num ramo de flores ou na brancura dos lençóis de camas antigas. 

 

 

Numa casa, já muitas vezes visitada por gente que vem de longe. Marina Colassanti esteve aqui, uma tarde, tecida na voz de Evaldo Barros: “Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear (… ) Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.” Tecer a vida com palavras é tudo o que fazemos.

 

 

Numa casa onde, por uma ou muitas vezes que vos for dado aqui passar, as estrelas à noite ou a conversa semeada pelos cantos hão-de soprar-vos sonhos de almas viajantes, celebrámos este ano, duplamente, uma dúzia de Primaveras. As da Joana e as da Francisca. Nascidas ambas a 6 de Setembro de 1996, num início de tarde, num dia igual em geografias diferentes. Conheceram-se há seis anos, que voaram num sopro, por obra do acaso, a propósito de histórias e de livros. E hão-de seguir caminhos diversos onde, desejamos, haja sempre amigos a chegar ou a serem lembrados.

 

“Não tenhamos receio das velhas lendas, pois a vida é mais velha que todas elas. As lendas podem nascer em todos os lugares, mas não viver em todos os lugares. Talvez possam viver em toda a parte… mas o local onde se desenrolam adquirirá importância; aqueles quilómetros quadrados e aquelas verstás ficarão para sempre ligadas ao tempo e ao destino. Reside aí o ponto de intersecção do tempo, da geografia, da vida… Se não houvesse história, a geografia não teria sentido. (…)”

Jorge listopad

Tristão ou a Traição de Um intelectual

in Fruta tocada por falta de Jardineiro

Editora Quasi

 

  Descalçou os sapatos mas não para ocupar a cadeira. Foi peregrinando espaços. Jardineiro atento mas complacente com a desordem própria do crescimento das ervas.

 

Das mãos da Lídia, como sempre, saíram doçuras.      

 

 

A chuva implacável do dia anterior ficou suspensa. O tanque encheu-se de água e de brincadeiras. As mães dividiram com a natureza as preocupações da maternidade.  Afinal, como há doze anos, como desde o início dos tempos, é sempre com ela que partilham o destino.

 

 

Os pequeninos aguardaram impacientes o barulho do papel rasgado no abrir dos presentes do dia do seu próprio aniversário.

 

 

Os crescidos, abençoados por figueiras grávidas de figos, fizeram novelos de esperanças. Os pais fumaram cachimbo ou recordaram o tempo em que o faziam, distribuindo silêncios e palavras. E todos filhos hão-de crescer, no mundo imenso, no meio dos irmãos dispersos, atados aos fios que mães e pais vão tecendo para serem cada dia mais longos, seguindo-os sempre, ansiando para eles, silenciosamente, no meio do ruído dos dias, apenas  felicidade.

 

 

 O Jardim fechou às 18:30. E abrirá amanhã… qualquer dia …sempre que a vida nos permita e a memória nos transporte.

 

Com um imenso obrigado à Tina

Sílvia  

Setembro 2008 “