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O Natal na Eira

Dezembro 19, 2010

 Na véspera de Natal, faz-se um passeio até ao pinhal

    

 e torna-se às texturas  e aromas da infância, enquanto se apanha o musgo para o presépio tradicional . 

            

 

 

 A montagem do presépio de barro é simples, feita de forma rústica, num improviso com  alguma arte.   

Na sala da lareira, uma mesa simples aguarda o bacalhau que mais tarde há-de chegar, enquanto, na kitchnette, os doces que vêm da cozinha grande já não cabem na mesa                       

A noite é de harmonia, de calor da família restrita e de amigos de outras paragens, à volta da lareira…

enquanto lá fora,  na noite fria, brilha a velha figueira, que nesta época se enfeita de luz.

E, tal como  noutros tempos, também o menino Jesus enche de surpresas os sapatinhos… 

 Enquanto as tradicionais filhós, bem quentinhas, acompanham a peguiça do café da manhã,

o forno na cozinha grande, aceso bem cedinho…

 

… garante que tudo  fica pronto a tempo para o nosso  almoço de Natal.

Feliz Natal!!

(E não me ocorre deixar-vos outro poema, senão este do século XIX, mas tão, tão actual nestes tempos de incertezas…)

 

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

É dia de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

(…)

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.

(…)

António Gedeão

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O Natal

Dezembro 25, 2007

boas-festas.jpg

Hoje vou limitar-me a desejar que neste Natal  a Paz, a Alegria e a Saúde encham as nossas casas, inundem os nossos amigos pelo país e pelo mundo e perdurem por todo o ano de 2008. 

Em dias da euforia de consumo rápido não é políticamente correcto falar das coisas simples.  

Mas na casa da eira a Noite de Natal é tranquila enquanto se espera pela hora de abrir os presentes, quando tudo está pronto para o almoço tradicional da família  mais alargada. A lareira crepita, enquanto ouço War is over e o Shrek anima os mais novos. 

Colheram-se as laranjas no quintal bem frescas para as filhós de abóbora, do limoeiro os limões para o arroz doce e o leite creme, do jardim as ervas  aromáticas com que se temperam as iguarias que o forno amanhã cedinho irá assar.   

Filhós  de Abóbora  

Faça-se um passeio pelo laranjal, entre os balidos das ovelhas e escolham-se as laranjas mais coradas para as arrumar na cesta. 

No regresso, escolha-se uma abóbora das que esperam junto do forno.  

A caminho da cozinha grande, passe na despensa e leve o açúcar e a canela. 

Limpe-se, descasque-se e corte-se em pedaços a abóbora, que se põe a cozer com casca de laranja q.b.  

Triture-se a abóbora (depois de tirar as casacas da laranja ),  

junte-se com a peneira a farinha de trigo, moida no moinho do Pisão  

e os ovos inteiros que a vizinha nos traz da capoeira, entre dois braçados de lenha para o forno.  

Junte um gole de aguardente e um pouco de fermento, com a esperança em dias melhores no Novo Ano. 

Mexa tudo, envolvendo bem. 

Deixe a levedar enquanto acende a lareira ou apanha um pouco de sol no pátio, serenamente. 

Frite em óleo bem quente, colocando a massa com uma colher de sopa, rodando-as com paciência de anjo, até dourarem por igual. Retire.  

Polvilhe com açucar e canela  generosamente, como decerto os que o rodeiam serão consigo ao longo do ano. 

Coma gulosamente e acompanhe com um café de cevada, ou outro a gosto, enquanto conversa com os seus amigos. 

Dispense a Bimby e o stress do dia a dia, e saboreie a calma da verdadeira culinária 

com o aroma da terra.